Em busca da carne para seu churrasco dominical, você chega até o açougue da grande rede de supermercados. Do outro lado, o profissional da área, especialista no assunto e o elo de confiança para que tudo dê certo com seus cortes e você surpreenda os seus amigos. Mas e se o açougueiro fosse vegetariano? Abominasse o consumo de carne. Como ele poderia ajudar alguém e vender algo que não acredita, em um conflito direto com seus valores pessoais?

Não sei se existem açougueiros vegetarianos. Talvez sim. Mas existem publicitários socialistas. Vivem no mesmo conflito existencial. Profissionalmente trabalham em negócios privados para grandes empresas, ajudando a comunicar marcas que disputam a atenção de consumidores no ambiente de concorrência livre. Por outro lado, pessoalmente acreditam no Estado onipresente, no cerceamento da atividade privada, em um mercado com mais controles e menos liberdades.

Alguém pode pensar que o vegetariano precisa sobreviver. Precisa trabalhar e ter renda. E se não pode comer carne, que viva dela vendendo para os outros. Triste quando visões pessoais de mundo são prostituídas pelo que convencionalmente se chamou: necessidade de viver. Como Henry Miller disse em sua obra: “Se alguém bater em minha porta para vender alguma coisa, eu convidarei a entrar e direi: Por que você está fazendo isso? Se ele disser que é porque precisa ganhar a vida, eu lhe oferecerei o dinheiro que tiver e pedirei mais uma vez que pense no que está fazendo. Quero impedir tantos homens quanto possível de fingir que têm que fazer isso ou aquilo para ganhar a vida. Não é verdade.”

Não sei se os publicitários socialistas estão nessa vida para ganhar um dinheiro ou para viver uma mentira. Talvez acreditem em seus sonhos ingênuos que em algum lugar da “próspera” Venezuela ou da anacrônica Coréia do Norte, agências de publicidade descoladas desenvolvam campanhas criativas para impulsionar novas marcas que serão distribuídas no livre mercado para atender as necessidades dos (in)felizes habitantes locais.

Fica difícil pensar que você depende de alguém que não come (e abomina o ato de comer) carne para escolher as peças de seu churrasco. Da mesma forma, como alguém que detesta os valores da sociedade livre, capitalista e democrática pode ajudar uma marca a vencer o jogo da competição? Como dar propósito a um negócio quando sua crenças pessoais são despropositadas com sua escolha profissional? Hora de começar a comer carne bem mal passada ou assumir de vez aquela hortinha orgânica na sociedade alternativa.

Felipe

 

 

 

 

 

Felipe Schmitt-Fleischer

http://www.felipefleischer.com

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