Tenho um instinto para amar a verdade; mas é apenas um instinto. A frase de Voltaire parece que se encaixa nos nossos ideais de uma vida livre. Afinal a verdade soa como algo essencial. Mas qual verdade? Aquela que afirmam nossos líderes ou a que vemos nas redes sociais? Talvez a das estórias que as marcas nos contam. Ou que ouvimos de nossos amigos. Achamos que existe uma única verdade. Por isso, nos espanta quando surgem outras, como a saída da Grã-Bretanha da União Européia, a vitória de Trump nos Estados Unidos ou o escândalo de corrupção petista no Brasil.

A promessa de um mundo livre e multicultural aonde pessoas pudessem interagir com outras, independente do lugar aonde vivessem para construir uma sociedade melhor. O sonho contemporâneo da aldeia global e do fim da história ruiu de forma tão surpreendente quanto o império socialista soviético. Lá se imaginava que tudo era para sempre. Até que acabou. Mas o fim foi lento, a derrocada durou décadas aonde as pessoas viviam uma realidade que todos sabiam que não era verdadeira, mas em face de não ter alternativas, consideravam verdade.

O último documentário de Adam Curtis para BBC chamando HyperNormalization trata justamente deste tema. Mostra como estamos presos em uma armadilha parecida com que os cidadãos soviéticos estavam nos anos 70. Alguns pensadores batizaram nossa era de Pós-Verdade. Um lugar no tempo aonde a verdade em si não importa mais, mas o que achamos sobre ela. Assim, não importa o que Trump, Lula, Nike, Apple, VW ou aquele seu amigo do Facebook fazem ou fizeram. Importa o que eles dizem e o que pensamos disto.

A nova Pós-Verdade poderia se chamar também de velha mentira? Possivelmente. No entanto, vivemos tempos politicamente corretos. Chamá-la de mentira não seria adequado. Talvez pudesse ser acusado de misoginia. Este mundo irreal abre grande espaço para envolver as pessoas em enredos verdadeiramente recheados de inverdades. Prato cheio para políticos e para marcas subirem no seus palcos, sobretudo no ambiente das redes sociais, para divertirem um mundo hipnotizado e sem saídas (porque não enxerga a prisão). Mestres na arte de manipular percepções alheias.

Veremos ainda muitos mais cliques, likes, brand content, inbound marketing como combustíveis para manter as marcas neste jogo. Projetando imagens nas suas telas e olhando para seus balanços. Com o propósito central de levantar as bandeiras que façam você comprar mais. Não importando as consequências, afinal o que no fundo ainda valerá será a verdade contada e aquela na qual acreditamos. Sempre será assim, até um dia quando acabará.

Felipe

 

 

 

 

Felipe Schmitt-Fleischer

www.felipefleischer.com

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