Logo após o final da Segunda Guerra Mundial, diversas bases norte-americanas foram desativadas nas ilhas do Pacífico Sul. Não eram mais necessárias em face da vitória na guerra. Naquelas ilhotas não havia nada de interesse, apenas nativos e paisagens paradisíacas. Mas para estes nativos, os aviões americanos trouxeram produtos maravilhosos que jamais tinha visto antes. Eles queriam mais. Para isso, construíram “coisas” que lembravam pistas de pouso, fogueiras nas laterais, até uma cabana de madeira com alguém lá dentro com pedaços de pau imitando fones de ouvido e antenas. Uma espécie de controlador de voo.

Obviamente nenhum avião voltou. Apesar de terem feito uma imitação próxima de tudo que tinham visto, os americanos e seus produtos jamais apareceram. Isso se chama ciência do culto à carga, expressão criada pelo físico Richard Feynman. A fórmula pronta e copiada tinha toda o jeito exterior de ciência, mas não era nada científica. Pode parecer engraçado para quem observa de fora. Mas certamente, culto à carga ainda é realizado muito perto de onde você está agora.

DSC09829

As empresas em todo momento tentam replicar modelos de sucesso. Das mais diversas fontes possíveis, desde emulando estratégias supostamente vencedoras até executando pseudo-administração. Tão confiáveis quanto aquele óleo de cobra vendido nos fundos de uma carroça. De um lado, há os crentes em total previsibilidade, imaginam tratar o mercado e o futuro como um relógio. No outro, os céticos que deixam os ventos escolherem as direções afinal tudo é nebuloso demais. Quando de verdade nossa realidade e nosso mundo são um composto de relógios e nuvens.

A ciência e o conhecimento avançaram e as evidências e resultados servem para medir a eficácia das ações. No esporte essa evolução significou o fim de práticas antigas, como fazer jogadores treinarem no sol do meio-dia do verão com agasalhos ou proibir a ingestão de água durante os exercícios. O instinto cedeu espaço para a técnica racional. No entanto, muitas empresas seguem ainda seus próprios instintos. Acham que sabem o que as pessoas pensam sobre sua marca. Ficam distantes do mercado e não medem as ações de marketing que promovem. Orçamentos e planos de vendas são projetados sem ciência alguma. Philip Tetlock destaca que previsões sem técnica são como colocar chimpanzés para atirar dardos. E assim há muitos projetando 2017.

Como disse Feynman, a dúvida não é uma coisa a ser temida, mas algo de enorme valor. É o fascínio pelo desconhecido que acorda a inteligência e nos leva adiante. Aumenta o grau de descobrimento e elimina zonas escuras. Não tornando o mundo previsível, pois ele nunca o será, mas elevando a compreensão e as chances de dar certo. Fuja da maldita carroça e pare de beber aquele óleo de cobra. Para sua saúde e sucesso.

Felipe

 

 

 

 

 

Felipe Schmitt-Fleischer

http://br.linkedin.com/in/felipeschmittfleischer

http://www.spr.com.br/brand/

Post to Twitter