Ushuaia, cidade mais ao sul do mundo, reúne uma espécie de Nações Unidas de mochileiros, trekkers, viajantes com e sem destino, pessoas em voltas ao mundo em motos, bicicletas, campers, vans e tudo que pode andar e rodar. Talvez seja a proximidade do polo sul ou a fama de final do mundo. Uma espécie de magnetismo atraí as pessoas em busca de descobertas e respostas, algumas das quais, estão dentro de si próprias. Gente que quer viver o desprendimento de estar em um lugar ainda selvagem, bruto e incontrolável. Desistiram de ver o mundo pela NatGeo e resolveram vive-lo ao vivo e com todas as cores.

Algum tempo atrás escrevi um texto a respeito da diferença entre as coisas e as experiências e porque a segunda leva uma vantagem considerável. Nem todo mundo consegue visualizar com suficiente clareza essa distância de valor entre ambos. Tristemente algumas descobertas acontecem tarde demais. Thoreau disse que “A maior tragédia é a pessoa passar a vida inteira pescando para depois descobrir que não era de peixe que estava atrás”.

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Um dos enigmas deste homem moderno é que quanto mais poderoso fica, mais infeliz se torna. O consumidor sempre almeja e “precisa” de produtos próximos dos produtos que já possui. A SmartTV de 50 polegadas precisa do novo blu-ray, que precisa do Netflix, que precisa dos óculos 3D. No final, o consumidor vai precisar do tempo livre para curtir tudo isso, mas que não existe mais, em parte pelo sacrifício de manter a possibilidade de continuar comprando mais.

Mesmo que você se convença que as coisas valem bem menos que as experiências, ainda existe uma outra armadilha escondida. A indústria do turismo, da diversão e entretenimento também foi parcialmente “coisificada”. Uma experiência em um cinema multiplex, ou na nova arena esportiva, ou em um shopping, naquele hotel da cadeia internacional ou no restaurante de casual dining. Seja na cidade do mundo que estiver, tente descobrir onde você está. Você não está em nenhum lugar, mas em todos os lugares. Aquele espaço é uma abstração, um cyberspace de milhares de luzes que se repetem como um jogo de Playstation. Tal qual Benjamin Barber cita, você está preso no McMundo e nele as experiências são todas iguais com o mesmo objetivo: consumir mais.

Tente sair das escolhas óbvias de consumo. Ver outras perspectivas e ângulos culturais, saindo dos corredores e ruas de sempre. Das mesmas praias, quiosques e outros lugares comuns que repetem sempre a mesma música. Alguns precisam de uma bicicleta, um utilitário ou trailer para colocar na estrada do mundo e rodar. Talvez você não precise de tanto desprendimento. Certa vez Stowe disse que “As lágrimas mais amargas sobre os túmulos são por palavras não ditas e atos não concretizados”. Você não vai se arrepender de fazer. Colocar sua mente em outras perspectivas, culturas, cenários. Lugares e pessoas que não são mais do mesmo. John Izzo sugere aquela provocação: “Faça de conta que vai morrer daqui 6 meses e escolha 5 coisas que não podem deixar de ser feitas.” Agora o que está esperando deixando seu tempo passar? Com certeza sua BMW não irá visita-lo quando estiver no asilo.

PS: Confira também este post sobre o tema:

A coisas vão para o lixo, as experiências para a eternidade

Felipe

 

 

 

 

 

 

 

Felipe Schmitt-Fleischer

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