Pode espernear, mas o mundo vai mudar. Aquele mundo onde a ordem era imposta por leis antigas, que refletem um contexto que não existe mais, exigidas somente em momentos que favoreciam a alguns, está com os dias muito bem contados. Não estou falando que outra ordem, mais controladora e poderosa está assumindo, mas sim uma força distribuída, onde o núcleo é quase vazio e as pontas comandam a velocidade e o nível do serviço. Isso é consequência de uma nova onda de valores sociais, que hoje se chocam com os atuais valores. Não, não faço referência a gerações, nem mesmo a faixas etárias, mas sim a uma nova consciência que emerge rápido, sem idade, e que irá construir novos impérios, com outras configurações e impactos sociais e econômicos.

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Alguns exemplos disso, para citar os mais emblemáticos, que vivi recentemente. Comecemos pelo Nubank. Conheci há menos de dois meses. Vi um amigo postar algo nas redes sociais e me interessei em saber o que era. Pesquisei na Internet e lá tinha uma reportagem da Exame, que afirmava que havia mais de 70 mil pessoas na fila de espera de seu cartão de crédito Nubank com bandeira Mastercard. Entrei no site deles e analisei a rápida proposta de valor. Basicamente é algo assim: Não existe papelada. Você faz tudo pelo aplicativo, inclusive a análise de crédito. Se você for indicado por outro que já tem o cartão: maravilha(!), você pula a fila. Você nunca vai pagar taxa alguma por seu cartão de crédito, mesmo que mude o atendimento de conta (o que é mais do que comum em todos os bancos físicos). “Se você tiver um problema, você fala com a gente pelo aplicativo”. Não precisa ligar ou ir na agência e perder tempo. Inclusive, não existe agência. Tudo rápido, seguro e no momento que você desejar.

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Por outro lado, minha gerente de conta de pessoa física me liga, do banco Bradesco, um banco tradicional que se acha moderno. Diz que eu tenho que preencher uma ficha de análise de investimento para realizar uma aplicação em renda fixa que eu desejava fazer. Eu digo que não preciso de questionário, pois quero aplicar no tal investimento. Eu estou “ordenando” que ela pegue o meu dinheiro e coloque lá. Ela diz que não pode fazer nada, que é regra e que todos os bancos devem seguir este procedimento. Parece que são aqueles estojos de primeiros socorros ou a troca dos extintores, fato mais recente, que fez a população correr para se enquadrar e depois tudo morreu. Ao final, não preenchi, ela continua me ligando para que eu aplique (talvez mais preocupada com a meta dela do que comigo, mas tenho que responder o maldito questionário) e de sobra, cancelei o cartão que tinha com eles e fiz uma experiência com a Nubank. Em um dia exato tinha já o cartão aprovado e em produção. Em 7 dias, o cartão estava na minha casa. De acordo com o meu uso e meus pagamentos, os limites irão subindo.  Novos valores, para novos tempos.

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Um outro exemplo bem recente, aqui em Porto Alegre, envolve a atual Prefeitura (que neste caso representa quase que todo o jeito de administrar do país) e o Uber. Violência dos taxistas, onde muitos já eram até fichados na polícia, dirigindo como donos da rua e da cidade, com carros caindo, pois o dono da licença só quer saber de esgotar ao máximo o investimento feito no veículo e na licença. Evidente que tem exceções. A Prefeitura pode espernear, mas não tem volta, regularizando ou não, o Uber vai funcionar na plenitude, mais dia ou menos dia. O consumidor não quer mais ser refém de uma Central de Táxi, que administrava como máfia a frota, que foi desmontada pelo Easy Taxi e 99Taxis e que agora sofre impacto do Uber. Aliás, quando os aplicativos como o Easy Taxi vieram e destruíram o modelo das Centrais todos os taxistas gostaram disso, pois pagavam uma fortuna pelo sistema e pelo equipamento. Mas quando veio o Uber, ai a tecnologia não é boa, só atrapalha. O consumidor médio quer ele ter o controle, ter voz ativa e ter sua opinião respeitada. Que se reformule o sistema todo, começando pelas licenças dos táxis, eliminando quem não tem ficha limpa e retirando os cartéis de “empresários” que possuem dezenas de carros, administrando frotas de táxis, “achacando” pessoas para dirigir para ele. Vamos fazer isso, desta forma, garantindo aos bons e sérios que permaneçam no jogo. O mercado dirá quem vencerá. Novos valores, para novos tempos.

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VELHO MODELO DE HOTELARIA

Outro emblemático caso envolve o Airbnb. Hoje ele já é a maior empresa global de hospedagem, sem possuir um quarto sequer, formando uma rede que cresce a cada dia,  compreendendo 800 mil quartos (este dado já deve estar desatualizado, apesar de ser recente). Assim, ultrapassando o INTERCONTINENTAL (688 mil quartos), o HILTON (685 mil) e o MARRIOT (675 mil). Durante a copa do Mundo no Brasil, 20% das hospedagens foram pelo AIRBNB. O pessoal quer viajar para um local e se sentir como um local. Talvez não seja o quarto mais limpo, nem a cama que te faz flutuar, com um mega travesseiro, mas querem que tenha um host que talvez lhe mostre a cidade, que lhe indique o must have do local, que lhe receba de forma amigável e não com um sorriso plastificado e uma saudação decorada. Recentemente, passei algumas semanas fora do Brasil e fiquei hospedado pelo AIRBNB. Na Califórnia, em Santa Mônica, fui o último que se hospedou pelo AIRBNB. Depois daquela semana, ninguém mais pode se hospedar pelo aplicativo, por determinações legais. Lá também está tendo brigas entre governo, lobistas dos hotéis e a plataforma. No inicio de 2015, em Santa Mônica, ele foi temporariamente cortado. Mas é uma questão de tempo, pois o que está mudando não é o sistema de check in, mas os valores envolvidos. Novos valores, para novos tempos.

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Agora vamos falar do Netflix como modelo de ruptura da convencional e aborrecida TV com sua programação fixa que te obriga ou assistir aquilo ou aquilo mesmo. Que coisa mais insuportável isso. Já o Netflix é como um amigo, sempre lhe dando dicas do que você vai gostar. E quanto mais você “conversa” com ele, mais ele lhe ajuda. Maravilha. Que seja o fim da TV convencional e da elitizada TV por assinatura, onde é fácil você comprar um pacote e dificílimo você sair. Onde, para instalar, eles vem no dia, mas se o seu sinal cair, não há técnicos disponíveis para sua região, somente em uma semana (claro, eles estão todos instalando os equipamentos de outros). Eu fico com o Netflix. Já cortei há um ano a minha TV por assinatura e não ligo canal aberto nem sob tortura. Novos valores, para novos tempos.

E por fim, o Whatsapp, que um juiz de um canto do país conseguiu o feito de bloquear o aplicativo no país inteiro (deve ser daqueles que ainda manda um telegrama para parabenizar uma pessoa distante), para deleite das operadoras. O modelo de telefonia de você-otário-paga-mensalidade-e-não-usa-nem-metade está no fim. Que seja. Já vai tarde. Dizemos que estamos na era da informação, da tecnologia, da conectividade e nem o wifi do restaurante funciona. Ou mesmo a rede do hotel 5 estrelas, que nem baixar os e-mails você consegue, imagina um filme. Talvez o compartilhado do quarto do Airbnb que você alugou seja melhor. E dentro dos valores novos, entre um lençol de fios egípcios de não sei quantos mil fios e um palhaço vestido na porta do hotel rindo para mim como se isso fosse sinal de serviço agradável e uma boa conexão wifi, eu fico com o sinal e pode me dar um saco de arroz que eu me enrolo. Novos valores, para novos tempos.

Como lema do que faço profissionalmente, em minhas consultorias, digo que eu causo a desordem onde a ordem não funciona mais. E estes exemplos acima são negócios que questionam esta ordem que julgo que começa a dar sinais que não funciona mais. Por que não ser diferente? Por que fazer deste jeito antigo? Estas são as grandes questões. Esta nova geração de negócios e a próxima, que já desponta, muito menos centralizada, não aceitarão regulamentos que são cabrestos disfarçados de lei. Eu gosto desta desordem, pois, querendo ou não, não tem como segurar água. Ela vai passar e ficar. Que sorte a minha de viver agora, neste momento, vendo tudo isso acontecer.

Até o próximo

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Gustavo Campos

Coach comercial e Publisher do Pensador Mercadológico

www.pensadormercadologico.com.br

 

Gustavo Campos, administrador por formação, empreendedor por natureza. Muito estudioso, leitor voraz, odeia falar ao telefone. Gosta de tecnologia, apesar de se incomodar em pagar mais caro por ser um dos primeiros a comprar algo. Geek por estilo de vida, sempre está conectado, não sabendo o que seria de sua vida sem notebook, smartphones, tablets, Moleskine e uma boa conexão Wi-Fi com a Internet. Ambicioso, não alcançou ainda nem o início do que quer desta vida. Professor apaixonado pela vida e por sua família, dono do Max e da Pink, o casal de Yorkshires mais famosos da cidade.

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Fontes das imagens:

http://pt.freeimages.com/photo/piggy-bank-1425381

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http://pt.freeimages.com/photo/hotel-sacher-1227358

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