Este post contém spoilers do filme “Pegando Fogo”, com Bradley Cooper. Neste artigo, o personagem principal será retratado apenas como o “herói” do filme, em virtude da linha de desenvolvimento da história.

Olhei o filme em pré-estreia, pois desde que vi o trailer queria assisti-lo por completo. Burnt é um daqueles filmes que não será indicado para o Oscar e creio que não será um blockbuster, mas mereceu minha atenção especial. Foi muito bom olhá-lo e refletir sobre sua história. O roteiro é simples: cozinheiro famoso e talentoso que dirige restaurante francês e quando vai receber a avaliação do Michelin, põe tudo a perder. Não aguenta a pressão, vive drogado, contrai dívidas com traficantes mafiosos e acaba com a sua vida. Após um período de recuperação auto imposto, onde trabalha em um restaurante simples abrindo ostras, resolve recomeçar a sua vida, desta vez, em Londres, a metrópole que hoje aflora como centro gastronômico mundial, a despeito da sempre festejada Paris. Mas, acima de tudo, ele deseja conseguir a terceira estrela do guia Michelin, que é, para ele, o prêmio máximo. E o final é previsível. Fica com a mocinha, muda seu comportamento e consegue as três estrelas. Ponto, o filme é isso. Fórmula conhecida de muitos outros filmes, bem típica e apoiada na jornada do herói de Campbell.

fire

Mas, alguns pontos da história merecem uma reflexão com o nosso dia a dia. A meu ver, destacaria estes, que podem ser usados para refletirmos sobre nossos negócios, e por que não, sobre nossa vida:

Somente o ótimo é aceitável: Não existe o bom. O padrão tem que ser ótimo. Tudo tem que ser perfeito e devemos garantir a experiência máxima. No filme se nota isso durante os discursos do protagonista e na forma como não aceita os ingredientes que não estejam no ponto que ele considera ideal. Jim Collins, dizem que é o sucessor de Peter Drucker, já dizia que o bom é o inimigo do ótimo, pois aceitamos o bom como um nível excelente sem questionar se não podemos melhorar mais. Questão para refletir: Aceitamos o bom em nosso negócio e em nossa vida como um padrão inquestionável?

Explorando novos mundos: A busca da perfeita experiência não tem local ou hora, devendo ser full immersion. No filme vemos isso acontecer em suas escapadas a noite, para refletir e para se alimentar em feiras alternativas, food trucks em locais “suspeitos”, mercados públicos, etc. Questão para refletir: Pesquisamos e exploramos mundos próximos ao nosso ou mundo correlatos em busca de novos “ingredientes” para o que fazemos?

Concorrência insana: Perceberão ao ver o filme que não há limites para a concorrência no mundo da alta gastronomia. Inclusive limites éticos e morais são facilmente rompidos. Em um determinado momento do filme, onde o nosso “herói” está em crise pois perdeu a chance na avaliação do Michelin (teve a cozinha sabotada por um “amigo” que ele já havia sabotado no passado), invade a cozinha de um concorrente, totalmente atordoado e embriagado. Diante da inesperada invasão, o Chef concorrente manda todos os seus ajudantes se retirarem do recinto e “cuida” do invasor. Depois de recuperado, ele pergunta por que foi cuidado e o concorrente responde que ele é o melhor, que seus pratos são superiores e que todos precisam dele para que os conduza a patamares antes não imaginados em Londres. Questão para reflexão: Onde está o seu nível de competitividade para fazer com que seu setor cresça como um todo, elevando todos os padrões possíveis e existentes? Quem é o melhor do setor?

Um conceito novo para o que é cozinhar: Perceberão no filme que a busca pelo entendimento do que ele esta fazendo é outra. Não está cozinhando excelentes pratos, com os melhores ingredientes em um bom ambiente. Não se trata da comida. O herói do filme conceitua que o alimento, a comida, não deve ser o principal. Seu conceito, amplo mas em outro nível, aborda a experiência total dos sentidos. Ele quer que as pessoas sintam alta ansiedade aguardando os pratos. Quer que elas desejem com todas as suas forças aquela experiência e que, ao receberem seus pratos, sintam algo que ainda supere aquele desejo, aquela expectativa. Uma explosão dos sentidos. Questão para refletir: Você já pensou em reestruturar a experiência total do seu negócio a ponto de superar todas as expectativas que seus clientes possuem?

chef-cooking-1383480-1278x848

Experiência total: No filme, o protagonista retrata isso com cuidados com os mínimos detalhes; por exemplo, exigir que todos os funcionários observem as mesas e, no caso de um cliente deixar cair um garfo, restituí-lo antes mesmo que essa pessoa peça um novo talher. Outro exemplo é a preocupação de entregar os pratos, a la carte, sem nenhuma impressão digital na borda do prato. O herói do filme limpa todos os pratos com um pano antes de chamar a equipe para entregar aos clientes. Vários itens desta preocupação com a experiência, no filme, são baseadas no padrão Michelin 3 estrelas, que é uma referência de qualidade a ser empenhada e entregue. Questão para refletir: Qual a sua referência de qualidade que valida a experiência que você quer entregar de forma consistente a TODOS os clientes?

Objetivos claros e sucintos: Veremos bem claro no filme que o herói busca somente um objetivo: conquistar as 3 estrelas do Michelin (ele já havia sido premiado com duas estrelas). Mas também notaremos que existem outros objetivos secundários, como reconstruir sua imagem, pagar umas dívidas, se desculpar com algumas pessoas, etc. Notarão que é possível modelar um comportamento desejado quando se tem os objetivos mais claros, apoiados por valores atuais e alinhados com o tempo. Entenderão isso quando o filme fizer uma “virada de mesa”. Questão para refletir: Qual o seu único objetivo a ser conquistado? E quais outros objetivos secundários deverão ser conquistados em função deste principal?

Ambição elevada: Notarão que o herói do filme tem isso muito elevado. Ele não tem nada, mas tem “conhecidos” (que a principio o odeiam, pelo que fica nítido devido ao seu estilo “diva behavior”) e tem um talento natural para a cozinha, algo excepcional. E ele usa tudo isso para conquistar o que quer. Um investidor, que banque o seu jogo, nas suas regras, para que ele atinja as famosas três estrelas do guia Michelin. E, a meu ver, isso faz com que ele supere muita pressão no filme. Questão para refletir: Qual a sua ambição máxima neste momento da vida? E para a sua empresa?

Comportamento copiado: Verão que em um determinado ponto do filme, seus funcionários começam a tratar uns aos outros da mesma maneira bruta e sem noção alguma de humanidade que são tratados pelo herói. Líderes de equipe apresentam comportamento submisso, mas ineficaz e sem engajamento. O negócio sofre como um todo. Mas verão que rapidamente isso muda, quando novos valores são aceitos como necessários e o herói adota outra postura, deixando a “diva” para trás. Ao final, quando o restaurante será avaliado pela equipe Michelin, o gerente do restaurante vem e o avisa que os avaliadores estão no aguardo para serem servidos. Nosso herói, então, avisa ao gerente que irão fazer tudo da mesma maneira que estão fazendo para todos, sem nada de mais especial. Isso alinha o grupo, gerando o envolvimento e comprometimento que faz a mágica acontecer. Questão para refletir: Qual o comportamento que você está emanando para a sua equipe copiar?

A necessidade de se reciclar: O herói do filme passa por um período longo de recuperação. Impõe a si mesmo a pena de abrir 1 milhão de ostras para depois recomeçar. Quando reinicia, adota hábitos e técnicas que funcionavam há uma década, mas que no momento não mais iriam garantir o padrão tão elevado. No início ele resiste, mas depois ele aceita e com o conhecimento vindo de toda a equipe e de processos novos, consegue a sua esperada revolução. Questão para refletir: Quais maneiras você utiliza para reciclar o seu conhecimento e a velha maneira de se fazer as coisas?

Enfim, devem existir muitos outros pontos no filme a se refletir nesta linha de raciocínio que busco a comparação. Também devem existir outros tantos pontos que não me interessou trazer para reflexão por não considerar o centro da temática que quis abordar. Mas espero que com estas questões juntamente com a observação do filme, você consiga melhorar como pessoa e como profissional. Assista ao filme e reflita. Passará por um bom período de entretenimento, conhecerá um pouco do mundo da alta gastronomia e, pensando nas respostas, poderá mudar alguns pontos em sua jornada. Ligue o fogão e mãos na massa.

Até o próximo

****************************************

Gustavo Campos

Coach comercial e Publisher do Pensador Mercadológico

www.pensadormercadologico.com.br

 

Gustavo Campos, administrador por formação, empreendedor por natureza. Muito estudioso, leitor voraz, odeia falar ao telefone. Gosta de tecnologia, apesar de se incomodar em pagar mais caro por ser um dos primeiros a comprar algo. Geek por estilo de vida, sempre está conectado, não sabendo o que seria de sua vida sem notebook, smartphones, tablets, Moleskine e uma boa conexão Wi-Fi com a Internet. Ambicioso, não alcançou ainda nem o início do que quer desta vida. Professor apaixonado pela vida e por sua família, dono do Max e da Pink, o casal de Yorkshires mais famosos da cidade.

Quer receber os textos por e-mail? Na página principal, nos informe seu e-mail e receba as idéias e provocações dos pensadores mercadológicos.

 

Fonte da imagem do fogo: http://pt.freeimages.com/photo/fire-1399140

Fonte da imagem do cozinheiro: http://pt.freeimages.com/photo/chef-cooking-1383480

Post to Twitter